COLÉGIO PEDRO II

PROGRAMA DE RESIDÊNCIA DOCENTEPDR

I SEMINÁRIO DE MEDITAÇÃO LAICA APLICADA- 2013

  

I SEMINÁRIO DE MEDITAÇÃO LAICA APLICADA

 

Fernanda Santos Vallim da Silva
Programa
de Residência DocentePRD 2013.

 

 

Meditação Laica Educacional:

despertando o lado emocional dos alunos

 

 

RESUMO

           

Esta apresentação propõe-se a analisar o discurso dos alunos do oitavo ano do Ensino Fundamental da rede municipal de Belford Roxo como resultado das duas práticas de meditação laica no espaço escolar. Esse trabalho foi apenas um estágio inicial de uma pesquisa qualitativa de base interpretativa cujo interesse é tecer sentidos para as experiências dos alunos. Como fundamentação teórica, recorreu-se aos estudos de Foucault (2011) e Rato (2011). Podemos inferir, com os dados gerados, que a meditação laica educacional contribui para que os alunos consigam identificar o que sentem e isso, sem dúvida, é o primeiro passo para saber lidar com o lado emocional. Além disso, tal prática, junto às falas dos alunos, favoreceu a minha percepção do espaço escolar e a identificação de que as salas do segundo segmento do Ensino Fundamental precisam ser mais acolhedoras.

 

PALAVRAS-CHAVE

 

Meditação Laica; ensino; educação;

 

 

  1. I.      INTRODUÇÃO

 

            Já tinha visto em filmes e escutado alguma informação sobre meditação, mas, meditação laica educacional eu só fui conhecer no Programa de Residência Docente do Colégio Pedro II, em uma oficina ministrada pela Professora Claudiah Rato, docente de educação física.

No momento da escolha das oficinas, ao me deparar com o nome “Meditação laica para uma educação emocional”, tive interesse. Primeiro, porque é uma possibilidade de trabalhar a inteligência emocional dos alunos, que muitas vezes ignoramos em prol de um trabalho meramente focado na inteligência relacionada à aquisição de conteúdos. Segundo, porque dentro de uma escola pública, portanto laica, o adequado é que a meditação também o seja.

Pode-se notar como a prática de meditação é estranha aos alunos em um primeiro momento, em uma escola que constantemente oprime e condiciona seus corpos e suas mentes (Foucault, 2011). Escutar esses sujeitos faz com que pensemos de que forma a meditação pode completar as lacunas e os anseios do nosso sistema educacional, permitindo, talvez, uma ressignificação desse espaço e daqueles que nele se inserem.

 

 

II. JUSTIFICATIVA      

 

Há uma turma de oitavo ano que tem três tempos da minha aula às quartas-feiras. Esses dias estavam sendo mais desgastantes para mim do que qualquer outro durante a semana. Acredito também que eles tinham esse mesmo desgaste, inclusive pelo fato de que, além de ser muito tempo mantendo a atenção na mesma matéria, eles sequer têm algum intervalo desde o horário que entram até o horário que saem da escola.

Dessa forma, ao entrar em contato com a Meditação Laica Educacional, por meio de uma oficina no Programa de Residência Docente do Colégio Pedro II, resolvi tentar aplicar esta prática, a fim de favorecer uma maior concentração dos alunos e de criar um ambiente mais tranquilo durante as minhas aulas.  

 

  1. I.      OBJETIVOS

 

OBJETIVO GERAL:

 

Utilizar a técnica da meditação laica educacional como tentativa para criar um ambiente mais tranquilo durante a aula, favorecer maior concentração e despertar nos alunos a consciência de suas emoções.

 

OBJETIVOS ESPECÍFICOS:

 

  • Aplicar a técnica em uma turma agitada;
  • Coletar as impressões dos alunos sobre a prática da meditação laica educacional.

 

 

  1. II.    METODOLOGIA:

 

A prática de meditação laica foi aplicada em uma turma de oitavo ano, com 31 alunos, na faixa etária entre 13 e 17 anos. É uma turma bastante agitada e bastante participativa, porém, às quartas-feiras, quando minha disciplina tem três tempos (o primeiro tempo, o terceiro e o quarto da grade), a turma mostra-se bem menos disposta nos minutos finais. Dessa forma, depois que descobri a meditação laica educacional, no primeiro dia de aplicação, fiz da seguinte forma: dei matéria no primeiro tempo. Quando voltei à turma no terceiro tempo, comecei a aula com a meditação, deixando os alunos relaxarem um pouco o corpo e a mente e, quando eles se sentiram prontos, continuamos com os dois tempos que ainda faltavam. Pretendo continuar com essa sequência, pois, no segundo dia de aplicação, eu resolvi colocar a meditação por último. Não fui muito bem sucedida, pois a impressão que deu foi a de que os alunos estavam impacientes para irem embora para casa, enquanto que, quando fiz no começo da aula, eles pareciam não se incomodar com o transcorrer do tempo.

Apliquei a técnica duas vezes na turma até colher o resultado.

Portanto, optei por uma pesquisa qualitativa de base interpretativa, a fim de compor sentidos a partir do discurso dos alunos sobre a prática da meditação laica escolar. Para isso, utilizei-me de anotações sobre algumas falas após e durante a tentativa de aplicar a meditação e de um pequeno questionário-base, para a geração de dados. Esse questionário foi aplicado em 11 de setembro de 2013, logo após uma prática da meditação laica educacional de cerca de 10 minutos.

 

  1. RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

A geração de dados já começou na primeira aula em que apliquei a meditação. Foram menos de 10 minutos, mas que já renderam comentários e comparações feitas pelos alunos. Notou-se que o meditar não foi uma ação pontual e findável no momento em que os alunos abriram os olhos. Assim que considerei o momento terminado, alguns alunos manifestaram suas opiniões sobre a prática que acabara de ocorrer e pediram para que eu repetisse nas próximas aulas. Nesse momento, escutar as opiniões deles fez com que eu repensasse algumas práticas muito automáticas que temos em sala, assim como, o espaço da sala de aula, tão vazio, só com carteiras, quadro, giz, paredes e alunos. Não era só necessário decorar nossos corações, mas também, decorar aquele espaço para que ele também se tornasse mais acolhedor.

Entre as falas dos alunos, tive algumas como: “Professora, me lembrei da época do Jardim”. Isso fez com que eu repensasse o espaço escolar. Ao longo dos anos, a escola vai mudando o seu tratar com os alunos. Tiram-lhes os estímulos, os livros espalhados dentro da sala, não foca mais na criatividade e na emoção desses sujeitos. Essa prática favorece um olhar desses sujeitos para os seus interiores – um conhecer a si mesmo.

Outra fala que me chamou a atenção foi a de outro aluno. Ele olhava a tudo, do fim da sala, enquanto a maior parte dos colegas estava de olhos fechados. Quando pedi que ele fechasse os olhos, ele replicou “Se eu fechar, professora, vou acabar dormindo”. Diante disso, eu reafirmei: “Pode fechar os olhos. Agora você pode dormir”. Ainda meio desconfiado, fechou os olhos. Essa fala deixa evidente que essa técnica trabalha na tentativa de resgatar a escola enquanto espaço de acolhimento e de conforto para os alunos. Espaço perdido à medida que as séries escolares vão avançando. E é nesse sentido que essa prática causa estranhamento aos alunos no primeiro momento, pois visa à desconstrução e reorganização não só do espaço interior de cada um, mas do próprio espaço escolar.

Na segunda vez em que apliquei, um dos alunos cruzou as pernas e, diante de olhares dos colegas, perguntou-me em um tom de quem desejava uma confirmação: “Professora, não é para ficar de pernas cruzadas? Meditar é assim, não é?”. Respondi que cada um deveria buscar a posição que lhe fosse mais confortável, não sendo, necessariamente, de pernas cruzadas. Notei neste momento que, ainda que muitos alunos não tenham meditado antes, alguns já tinham algum conhecimento prévio sobre o assunto.

Dessa vez, apliquei um questionário-base para os alunos depois da meditação. Como nesta aplicação eles estavam ansiosos para irem embora, poucos se concentraram  realmente na tarefa, mas foi surpreendente ver que algumas alunas, que estavam de olhos abertos, atentas a tudo que acontecia durante a meditação, mostraram-se bem conscientes dos resultados da meditação em suas respostas ao questionário. Só pude perceber isso porque elas quiseram se identificar na folha de respostas, pois a orientação que dei foi a de manterem anonimato, a fim de se expressarem com mais liberdade em suas opiniões e em suas sensações. Entre algumas respostas dadas, temos a de vários alunos que não se identificaram e as dessas alunas, que aqui  identificarei por G e P.

 

1. O que você acha que é meditar?

 

Meditar é…

G: “Bom, é bom para esquecer dos problemas.”

P: “É ficar a só consigo mesmo.”.

“É ficar em harmonia com si mesma.”

“Meditar ajuda a pensar e relaxar é muito bom. Ajuda a ficar mais tranquila.”

“Se encontrar com coisas que nunca tinha se encontrado”

“Acho bom, porque nos ajuda a relaxar e a ficar mais animados”.

 

2. Você comentou com alguém sobre a primeira meditação feita em sala? Com quem?

G: “Ainda não! Prefiro pensar só.”.

 

O essencial dessa resposta é a preferência por pensar só e a relação que essa resposta tem com a prática da meditação, que pode ampliar e favorecer mais momentos de análise interior e de silêncio para que o indivíduo consiga escutar a si mesmo.

 

3. O que você sente durante a meditação?

“Sinto uma coisa boa, muito relaxante, pensamos em coisas legais, etc.”.

 

A fim de identificar as palavras que mais apareceram nas respostas, fiz um levantamento dos léxicos utilizados para resumir a sensação durante a meditação e em quantas respostas eles apareceram.

 

Palavras que apareceram nas

respostas dos alunos (unidade de registro)

Quantidade de vezes que as palavras apareceram nas respostas

estressado/raiva 1
amor 1
tédio 2
corpo leve e suave 2
relaxada 5
entusiasmado 2
descanso 1
bem 4
nada 1
sono 5
paz e calma 1

 

Das respostas lidas, uma, em especial, impressionou-me. Um aluno, que sempre se senta ao final da sala, não participa de atividades em grupo e fica o tempo todo calado, respondeu que durante a meditação sente-se “estressado e com muita raiva”. Destoou completamente das respostas dadas pelos demais alunos. Se trabalhar com meditação é favorecer um autoconhecimento, como evidenciado em respostas de alguns alunos, além também de propiciar uma tranquilidade, o que será que há no interior desse aluno tão calado que, ao ficar em silêncio consigo mesmo, sente muita raiva neste auto confronto?    Certamente é uma pergunta cuja resposta carece de mais tempo e de mais práticas de meditação, seja para que ele identifique o cerne desse estresse e dessa raiva, antes que ela se torne um comportamento automático, seja para que ele se sinta mais à vontade para partilhar seus sentimentos com outras pessoas, antes que isso se transforme numa ação descontrolada. Nesse sentido, relembro a fala de Goleman (apud Rato, 2011, p. 75) que afirma que “a mente racional não decide que sentimentos devemos ter, ao contrário, em geral nossos pensamentos nos chegam e provocam emoções antes mesmo de decidir se queremos senti-las” e ainda “diante disso, o que a mente racional pode fazer é controlar o curso de nossa reação”.

Segundo Rato (2011, p. 77), “ao reconhecer as próprias emoções e sentimentos, pode-se ganhar controle sobre eles, gerando um comportamento emocionalmente inteligente”.

 

4. Você espera obter algum benefício com essa prática de meditação laica? Quais?

 

G: “Sim, mais inteligência.”.

P: “Sim: ser mais tranquila.”

“Sim. Ainda não sei, melhoria na escola.”

“É bom para relaxar e me sinto mais leve.”

“Sim. Para me conhecer melhor.”

 

A resposta da aluna P mostra que ela parece identificar a necessidade de  ser mais calma, denunciando com isso que não se considera muito assim neste momento. Já a resposta de um/a aluno/a que não se identificou mostra a sensação de leveza durante a meditação. Cabe a nós refletirmos o que faz com que haja essa leveza. O que vai embora com a meditação que faz com que muitos se sintam mais leves, quem sabe, até mais livres. Outra aluna mostra a relação entre a prática de meditação e a busca do autoconhecimento. A aluna J afirma buscar mais inteligência com essa prática. Aqui não ficou claro o conceito de inteligência, se é em relação aos conteúdos trabalhados em sala, a partir de uma maior capacidade de concentração ou uma inteligência emocional mais equilibrada. De qualquer forma, a meditação laica educacional favorece ambas para os alunos. Desse modo, tais respostas dialogam com Rato (2011, p. 82): “O relaxamento consciente provê aos estudantes grande capacidade de expandir um olhar interno a si mesmo e às suas relações com terceiros, assim como, ajuda a focalizar a atenção no controle de seus comportamentos e nas tarefas da escola”.

 

  1. IV.  CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Em relação aos dados gerados, percebo que ainda que eu não tenha criado um ambiente mais ambiente tranquilo na minha sala de aula por enquanto, de alguma forma a meditação laica educacional contribuiu para que meus alunos começassem a identificar o que sentem e isso, sem dúvida, é o primeiro passo para saber lidar com o lado emocional. Também percebi que tal prática, junto às falas dos alunos, favoreceu a minha percepção do espaço escolar e a identificação de que ele carece de mudanças. A sala de aula do segundo segmento do Ensino Fundamental precisa ser mais acolhedora.

            A meditação laica educacional é uma prática inovadora e necessária para o ambiente escolar, uma vez que o papel da escola é formar plenamente o cidadão, e para uma boa formação, é preciso um equilíbrio entre as várias inteligências dele, em especial, a cognitiva e a emocional.

Precisamos perceber que o mundo em que vivemos sofre muitas modificações, exigindo agilidade, pressa e curtos prazos para a realização de tarefas e alcance de metas, sendo assim, o indivíduo precisa ser preparado para lidar bem com as pressões externas. Deve-se entender lidar bem com as pressões, de modo a conseguir viver em um mundo assim sem se deixar angustiar. Além disso, essa prática propicia um momento de maior concentração, qualidade necessária muitas vezes e difícil de ser praticada em um mundo globalizado que nos bombardeia com anúncios, propagandas, programas de televisão, músicas e tantas outras informações. É complicado conseguir ter foco e concentração diante de tantos focos disponíveis.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão; tradução de Raquel Ramalhete. 39. Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.

 

RATO, Claudiah. Meditação Laica Educacional: para uma educação emocional. Jundiaí: Paco Editorial, 2011.