PROFESSORA Sylvia Helena Macedo de Faria

Meditação laica na escola: medindo a ação do aluno e do professor

Uma breve introdução

Quando vi no quadro do Programa de Residência Docente do Colégio Pedro II a oficina “Meditação Laica educacional”, de súbito me interessou. Já tinha ouvido falar sobre a disciplina por uma amiga que havia feito a residência no ano anterior. Não tinha ideia de que o Colégio Pedro II implementava, em aulas de Educação Física, tal método como prática pedagógica. Além das boas referências, havia um interesse particular, já que, como educadora e, antes de tudo, como ser humano, sempre carreguei desejos que precisavam ser realizados.

Em minha prática docente como professora de Língua Portuguesa do Ensino Médio do Colégio Estadual Antônio Houaiss (situado no bairro do Méier, no Rio de Janeiro) e das escolas municipais Manoel Bomfim (em Del Castilho) e George Sumner (no Riachuelo) sempre busquei aliar o conteúdo da disciplina a “algo mais”. Porém, o que seria esse “algo mais”?

Tive a oportunidade de começar essa descoberta na oficina de Meditação Laica. Sabia que carregava comigo o conteúdo (aquele que nos é ensinado na universidade), mas sabia também que isso não era o bastante. Quando entramos em uma sala de aula de uma escola pública municipal ou estadual nos deparamos com uma estrutura muito complexa. A universidade não nos prepara para a sala de aula, é na práxis que vamos construindo e desconstruindo nossas ações e percepções.

Os educadores precisam lidar com os mais diversos tipos de educandos, e estes, por sua vez, precisam dar conta de todas as emoções contidas, amordaçadas ou ainda escondidas dentro deles mesmos, assim como nós professores. Dessa forma, RATO (2011) em Meditação Laica Educacional para uma educação emocional afirma que “não existe o ponto de vista absoluto do sujeito. Existem tantos pontos de vista quanto sujeitos. Não há ponto final nem no sujeito nem na realidade.” (p. 39).

É de uma experiência ou desses pontos de vista que surge esse relato. Afinal, cada ser humano carrega consigo demandas conscientes e inconscientes. Cada sujeito possui sua singularidade e é dessas múltiplas singularidades que surge a Meditação Laica Educacional como uma proposta inovadora e de extrema importância para o ambiente escolar.

 

Plano de aula:

A Meditação Laica como prática pedagógica

Depois da primeira oficina de Meditação Laica ministrada pela professora Claudiah Rato, resolvi me aventurar nessa perspectiva didático-pedagógica. No final da aula de Língua Portuguesa do dia 26 de junho de 2013, decidi aplicar o método com uma turma de sexto ano da Escola Municipal Manoel Bomfim.

Após algumas tentativas frustradas de tentar melhorar o comportamento da turma, reservei os últimos dez minutos de aula e perguntei quem gostaria de participar de um “relaxamento”. Primeiramente, expliquei que o “relaxamento” era usado por uma professora do Colégio Pedro II e que tal prática havia comprovadamente melhorado o desempenho e o comportamento de muitos alunos. A maioria da turma decidiu participar. Conduzi a Meditação Laica conforme a técnica aprendida.

Como primeira experiência devo confessar que passei por um momento no mínimo interessante. Ao término, alguns alunos haviam cochilado, mas a maioria logo perguntou se haveria outras vezes o tal “relaxamento”. Fiquei feliz com a receptividade da maior parte da turma, mas o que mais me chamou a atenção foi a fala de uma aluna de onze anos. A menina perguntou se poderia conversar comigo em particular. Fui com a aluna para fora da sala de aula e ela alegou que precisava me contar uma coisa que a incomodava muito. Ela tinha sido a responsável pelo sumiço do lanche de outra aluna (o que era um “mistério” desde o início do ano letivo na escola). Ela me contou aquele seu “segredo” em voz baixa e disse: “professora, não conta para ninguém, por favor! Foi uma brincadeira! Nunca mais vou fazer isso”. Eu perguntei: “mas o que te levou a contar isso para mim?” Ela respondeu: “a senhora falou pra gente jogar fora tudo que estivesse fazendo mal. Aí me deu vontade de falar isso com a senhora”.

Nesse momento, me senti sensibilizada e o “desabafo” daquela aluna me pareceu um aprendizado para ela mesma, ao mesmo tempo a repreendi de forma “amigável” dizendo que tal fato não deveria mais se repetir. Foi impossível conter o abraço. Era um abraço mútuo. Verdadeiro. Os olhos da menina se encheram de lágrimas e eu, mesmo que intuitivamente, mesmo que uma aprendiz, assim como ela, me senti desempenhando um papel importante. Essa sensação não veio de uma ação lógica do pensamento, mas de um processo de ação e reflexão que “mexeu”. Que teve como base o sentir.

 A mesma prática pedagógica apliquei outro dia, no turno da tarde, para uma turma de sétimo ano. A turma 1704 é conhecida na escola pelos seus alunos indisciplinados. Mais uma vez, achei que a meditação laica poderia ser útil como forma de fazer os alunos olharem para dentro de si. Na 1704, tive uma outra grande surpresa: um aluno que só desenhava e que vinha transferido de uma outra escola da rede (e que muitos afirmam ter certo grau de autismo), após a prática da meditação laica, caiu em prantos e começou a falar. Fiquei sem saber o que fazer, mas resolvi que o melhor era acolhê-lo da forma que eu conseguisse. Assim foi o relato dele:

“Quando a senhora começou a falar eu enxerguei tudo preto e logo depois estava num campo rural da China. Estava casado e com dois filhos. Minha esposa cuidava de mim e eu cuidava dela. Era um lugar de muita paz. Depois, quando a senhora foi falando pra gente sair do lugar eu abracei todos os meus colegas de turma”.

Nesse momento, a professora é que não se conteve. Em meio ao choro contido e “segredos de liquidificador”, como diria o poeta Cazuza, abracei o aluno que chorando, de certa forma, também me acolheu.

Atualmente, quando posso tenho reservado dez minutos da aula para aplicar a meditação laica, não só porque os alunos pedem, mas porque a minha singularidade também o tem exigido. Nascemos, crescemos e morremos sem saber lidar com as emoções. A nossa sociedade nos massifica com o que é supérfluo e passageiro: o que é etéreo, impalpável, parece cada vez mais ocupar um não lugar.

Dessa forma, a Meditação Laica como prática pedagógica possibilita um enriquecimento interior que viabiliza um melhor aproveitamento de tudo que nos é externo. Quando estamos tranquilos, somos mais receptivos aos estímulos oriundos de fora.

A Meditação Laica aproxima educadores e educandos, aproxima vidas e nos faz pensar sobre a importância da emoção para o ser humano. Nesse sentido, o processo de ensino-aprendizagem torna-se mais amplo, mais agradável. Educadores e educandos precisam ser protagonistas de um processo de ensino-aprendizagem subjetivo, no qual a objetividade acontece aliada a um desenvolvimento de subjetividades e singularidades.

A prática da Meditação Laica legitima o que Paulo Freire já havia afirmado em Pedagogia da Autonomia (1996): “me movo como educador, porque primeiro me movo como gente”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. SP: Paz e Terra. Coleção Leitura, 27° Ed, 1996 p.94.

MORIN, E., ET AL. Educar na Era Planetária: o pensamento complexo como método de aprendizagem no erro e na incerteza humana. Ed. Cortez; Brasília: UNESCO, 2009.

RATO, Claudiah. Meditação Laica Educacional para uma educação emocional. SP: Paco Editorial, 2011.